Quadrinhos e Política
Nildo Viana∗
Universidade Federal de Goiás
Índice
1 A política nos quadrinhos . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . 1
2 Mensagens Políticas nos Quadrinhos . . . . . . . . . . . .
. 6
3 A Política como determinação dos quadrinhos . . . . . . .
. 11
4 Os Quadrinhos como determinação da história . . . . . . .
. 13
5 Análise de uma Manifestação Política nos Quadrinhos: Os
Super-Heróis e as Eleições . . . . . . . . 15
Considerações Finais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . 18
Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . 19
1. A política nos quadrinhos
A política sempre se
manifesta no universo ficcional dos quadrinhos. Porém, um primeiro problema
surge a partir desta afirmação: o que é política? Sem dúvida, a palavra
política é, como todos os signos, polissêmica (Bakhtin, 1990). A polissemia do
termo nos permite complexificar como a política se manifesta nas histórias em
quadrinhos. Neste sentido, é possível recordar a afirmação de Lassale (1971, p.
11):
“A política faz
lembrar o círculo de Pascal, cujo centro está em toda a parte e cuja
circunferência não está em parte nenhuma: isto é, diversas são as definições e
múltiplas as vias de acesso que permitem descobrir-lhe a natureza e o
significado”.
Apresentaremos as
definições mais gerais de política para observarmos esta manifestação concreta
no mundo dos quadrinhos. Para alguns, como Aristóteles, o homem é um animal
político. Por política, ele entendia a vida na polis, a vida comunitária na cidade. Esta concepção está
relativamente distante das concepções mais usuais de política. As concepções
mais comuns de política apontam para sua percepção como uma esfera separada da
sociedade, que teria sua existência comandada pelo Estado. Trata-se de uma
concepção restrita de política, pois esta seria apenas a política institucional
(Viana, 2003)[1].
Uma concepção mais ampla é a marxista. Segundo Marx, a política é toda forma de
manifestação da luta de classes (Miliband, 1979; Viana, 2003). Outra concepção
é aquela que compreende por política as idéias ou ideologias políticas, ou
mesmo os que confundem política e ciência política, o objeto e a ciência que o
estuda. Há ainda o significado bem mais restrito de política como projeto e
planejamento (o sentido utilizado quando se trata de políticas públicas,
educacionais, etc.).
Assim, pensar a
manifestação da política nos quadrinhos é algo bastante complexo e por isso
faremos um recorte e dividiremos a análise desta manifestação em apenas três
aspectos, que consideramos mais importantes e proveitosos para uma análise dos
quadrinhos: a política como esfera estatal e especializada das relações sociais;
a política como manifestação das lutas de classes; a política como pensamento
político.
A
manifestação do Estado no mundo dos quadrinhos pode ocorrer através de
percepções e atribuições que o universo ficcional realiza[2]. A leitura de determinadas
HQ deixa explícito uma determinada percepção do que é o Estado ou o governo. O
Estado ou determinado governo pode ser visto como corrupto, totalitário,
indesejável e assim por diante. Utilizaremos um exemplo para demonstrar isso. V
de Vingança mostra uma sociedade marcada pelo domínio do Big Brother, uma
sociedade de vigilância e controle, um regime ditatorial. O personagem central,
chamado “V”, se declara anarquista e anti-Estado, mostrando o caráter
autoritário deste e como ele é ligado ao processo de dominação e exploração. O
poder instituído se intitulava Nórdica Chama. A palavra nórdica relembra o
nazismo e aí se vê uma determinada concepção de Estado: ele é equivalente a
totalitarismo. Isso é mais verdadeiro ao se recordar o fato de que V de
Vingança, segundo seu próprio criador, combate um Estado que é uma metáfora do
Estado neoliberal de Margareth Thatcher. Trata-se de uma reprodução fictícia de
uma realidade existente, a de um Estado penal (Wacquant, 2001; Viana, 2003; Viana,
2009a). Algumas características do neoliberalismo da época de Thatcher podem
ser vistas em suas páginas, tal como o autoritarismo, perseguição aos
imigrantes, negros, opositores políticos.
Diversos outros exemplos
poderiam ser elencados. No entanto, julgamos que apenas mais um seja suficiente.
A série “As Aventuras de Tintim”, apresentava diversas concepções de
determinados governos em seu universo ficcional. As chamadas “repúblicas de
bananas” na América Latina, o governo japonês e sua política imperialista na
década de 1930 e muitas outras referências a governos e ditaduras. Basta
recordar uma das mais famosas histórias da série “As Aventuras de Tintim”,
censurada e de difícil acesso até sua nova e recente edição, Tintin no País dos Sovietes, onde
desmascara o caráter ditatorial do governo “bolchevique” durante a vigência do
capitalismo de Estado russo (vulgarmente chamado de “socialismo real”) no final
da década de 1920. As ditaduras latino-americanas não são poupadas:
“Depois
Tintin desembarca na América Latina, para encontrar um ídolo arumbaia, roupado
do museu etnográfico (O Ídolo Roubado, 1937). Hergé aproveita esta
circunstância para apresentar, humoristicamente, as repúblicas de opereta, onde
os generais Alcazar e Tapioca se apossam do poder, alternadamente (Tintin
aprende aqui algumas coisas, pois diante da parece onde vai ser executado,
assistirá as peripécias ultra-rápidas da ‘revolução’)! Finalmente vence Alcazar
e Tintin é nomeado ajudante-de-campo; mas os homens dos ‘trusts’ americanos e
ingleses agitam-se e preparam uma armadilha a Alcazar. Finalidade: declarar
guerra a Nuevo Rico, país vizinho, visto que há um lençol de petróleo que se
estende dos dois lados da fronteira. O americano Chiklet dirige a ofensiva:
‘vá, general, reflita no assunto’, murmura-lhe ao ouvido. ‘É do seu interesse.
Repito-lhe que declare guerra a Nuevo Rico; anexe os terrenos petrolíferos e o
seu país ficará com 35% dos lucros que a nossa sociedade tiver. Destes 35%
ficarão para si 10%’. Como recusar? A oferta é tão tentadora! Mas não têm
armas. Encarregar-se-á disto Bazil Bazaroff, comerciante de canhões. Irá vender
seis dúzias de 75 T.R.6.P. com 60 000 obuses (pagamento em 12 prestações) e
fará o mesmo negociozinho com o general Mogador, que preside os destinos de
Nuevo Rico” (Marny, 1970, p. 88-89).
A política nos quadrinhos
também se expressa como manifestação da luta de classes. Isso é, de certa
forma, visível em V de Vingança, mas isto é apenas uma de suas manifestações.
Um exemplo russo seria Oktyabrina (Octobriana), nome cuja origem é a Revolução
de Outubro de 1917, porém, buscando representar a classe operária russa contra
a burocracia estabelecida. No caso brasileiro é possível citar Saci-Pererê, de
Ziraldo. Alguns autores vinculam este personagem com o populismo brasileiro
(Pimentel, 1989; Cirne, 1982), o que significa, que além de aproximação com
determinada ideologia política e governo estabelecido, mostra uma determinada
manifestação ficcional da luta de classes:
“Como
publicação pertencente ao esquema da indústria da cultura surgida à sombra da
democracia populista brasileira, Pererê guarda com esta a mais íntima ligação,
conservando visivelmente as principais características apresentadas, à sua
época, pela cultura em geral. Dentre a caracterização do populismo presente nas
histórias, o discurso deixa transparecer desde a terminologia dos movimentos de
esquerda até a conciliação de classes, passando pelo estereótipo do homem
simples e por um conceito apologético de povo” (Pimentel, 1989, p. 64).
2.
Mensagens
Políticas nos Quadrinhos
Mensagens no sentido de
atacar/defender governos, no sentido explicitar as luta de classes ou tomar
partido de uma delas, no sentido de manifestar ideologemas políticos[3], são visíveis em muitas
HQ. O uso dos quadrinhos para repassar mensagens políticas remonta suas origens
históricas.
“Em parte herdeira
da caricatura, a banda desenhada esteve desde a sua origem comprometida
ideologicamente. Töpffer, um suíço liberal, desenhou em 1845 uma sátira dos
revolucionários com L´Histoire d´Albert
Simon de Nantua. Pelo seu lado, o republicano francês Nadar, mais conhecido
pelos seus trabalhos de fotografia, imaginou em 1848 uma sátira dos
conservadores com La Vie Publique Et
Privée de Monsieur Réac. Do mesmo modo, as bandas desenhadas militantes –
comprometidas numa ação guerreira ou política – são manifestamente ideológicas:
por exemplo, as séries francesas durante a primeira Grande Guerra Mundial, as
séries americanas durante a Segunda Guerra, ou durantes os conflitos da Coréia
ou do Vietnam, a banda desenhada chinesa e a banda desenhada cubana. Nestas
séries, o ‘mau’ é simultaneamente o inimigo, claramente designado em termos
étnicos, de classe social ou de nacionalidade” (Renard, 198, p. 178).
Uma das mensagens
políticas presente nos quadrinhos é a mensagem eleitoral. Isto pode ser visto
desde em quadrinhos fabricados exclusivamente para fins eleitorais até
personagens famosos e revistas tradicionais. No primeiro caso temos George
Wallace, candidato a governador do Alabama, que se beneficiou, em sua
candidatura, com o lançamento de uma revista racista que apresentava sua
biografia e plataforma de governo. A revista, hoje disponível na internet em
idioma inglês, faz propaganda eleitoral e defende o racismo[4].
No
que se refere aos quadrinhos do grande capital editorial, o mundo dos
super-heróis é exemplar nesse aspecto. Basta olhar a última eleição
norte-americana e ver que alguns super-heróis declararam firmemente seu apoio e
voto. Apesar de alguns colocarem que “Super-Heróis não votam” (vejam análise no
final do presente artigo), eles declaram seu apoio e voto. O apoio pode ser do
Superman (DC Comics) ou de Dragon (Image Comics), ou seja, de qualquer
super-herói. O candidato Obama foi retratado com a imagem clássica de Superman
tirando a camisa e mostrando o símbolo do seu uniforme (S para Superman e O
para Obama). Na Revista de Savage Dragon, o então candidato a presidência dos
EUA, Barack Obama, aparece o super-herói declara seu apoio a ele.
Os quadrinhos também
repassam outros tipos de mensagens políticas, vinculadas à luta de classes, por
exemplo. Indo além das versões quadrinizadas de obras políticas, é preciso
reconhecer que quadrinhos como os dedicados a eventos históricos marcados pela
luta de classes e obras fictícias que a reproduzem em seu universo, tal como a
já citada Octobrina e V de Vingança. Cabe destaque a obra de Jacques Tardi e
Jean Vautrin, O Grito do Povo – Os
Canhões do 18 de Março, obra que reproduz sobre a forma ficcional os
acontecimentos durante a Comuna de Paris, primeira experiência autogestionária
na história da sociedade moderna, quando os trabalhadores instauraram o que
Marx denominou “autogoverno dos produtores” (Marx, 1986).
Quadrinhos que apresentam
críticas ao capitalismo, o que deixa evidente uma concepção política
anticapitalista ou pelo menos não-capitalista, também existem, tal como Ferdinando e os Shmoos e Era Urso?. Escrito por Frank Tashlin, Era Urso? conta a história de urso que
estava hibernando que, ao acordar, vê sua floresta totalmente devastada e uma
grande rodovia aparecia em seu lugar. Ao andar pelas ruas, todos pensam que ele
é um operário preguiçoso que não fazia barba e logo o constrangem a executar
trabalho alienado. Por detrás de tudo isto, uma percepção crítica da sociedade
moderna se desenha, no qual a hierarquia, a alienação, a impossibilidade de
comunicação, se manifestam na vida cotidiana de uma sociedade que vive em
função do lucro.
Ferdinando é um dos mais
famosos personagens das histórias em quadrinhos, cujo humor e crítica social se
juntam em seu universo ficcional. Na história Ferdinando e os Shmoos, uma crítica corrosiva ao capitalismo é
apresentada. Os Shmoos poderiam ser alimentos gratuitos para todos, o que logo
traz a recusa e perseguição, inicialmente pelos capitalistas da indústria
alimentar. A contradição entre felicidade e capitalismo se manifesta com toda
evidência. Uma frase de um capitalista deixa isso mais claro: “camaradas, esta
é uma crise! Se não fizermos algo depressa, todos serão felizes!” e outro
pergunta qual indústria será atingida após a indústria alimentar, enquanto um
outro já avisa que a dos transportes será atingida, pois não se transportará
mais alimentos. Engraçadíssima é a tira que mostra esse diálogo e a fila de
capitalistas para pular a janela e se suicidar. Numa sociedade onde tudo é
mercadoria, uma reviravolta é provocada pelo alimento reconvertido em produto
não-mercantil, valor de uso apenas, gratuito. O mais curioso é que a história
foi produzida em 1948, durante o Marchartismo e seu sistema de censura e
delação.
A manifestação de
ideologemas políticos é comum, principalmente o chamado “anticomunismo”, na
verdade a propaganda anti-soviética. Isto é visível, por exemplo, no caso dos
super-heróis da Image Comics (Dragon, Spawn, Witchblade, Angela, etc.) a partir
dos anos 1980, mas também sendo comum em outras revistas e personagens, tal
como no caso do Capitão América e outros. Na época da Segunda Guerra Mundial, a
propaganda antinazista e contra o Japão se tornou abundante nas revistas em
quadrinhos. A ideologia americanista está presente através de determinados
ideologemas não apenas de forma explícita, mas também implícita. O Capitão
América, com sua roupa que reproduz a bandeira americana é o líder da equipe Os
Vingadores. A sua liderança é homóloga ao papel de líder mundial dos EUA e
sempre representa uma suposta capacidade de liderar, bom senso, etc., que é
tipicamente norte-americana. Os ideologemas políticos a favor da ordem
estabelecida
são mais variadas e comuns. No caso dos super-heróis, isto é visível no caso de
Batman, Superman e vários outros, sempre ao lado do poder estatal. O mesmo
ocorre com os já citados super-heróis da Image Comics. Os quadrinhos policiais
e outros também reproduzem esta aliança com o poder estatal via ligação com o
aparato policial. O papel de líder mundial se reproduz nos heróis
colonizadores, Tarzan e Fantasma, brancos que se tornam líderes no continente
africano. Flash Gordon enfrenta o planeta Mongo (que lembra a palavra Mongol) e
o seu ditador, o imperador Ming, como nome e aparência oriental. Outras formas
de mensagens não diretamente políticas mas que tem por detrás de si uma
concepção política conservadora pode ser vista nos personagens Disney, como Tio
Patinhas, Pato Donald, etc. (Dorfman e Mattelart, 1980) ou então Zorro, o
cowboy (Dorfman e Jofré, 1978).
3. A Política como determinação dos
quadrinhos
A
política também se relaciona com os quadrinhos sendo uma de suas determinações,
tanto na esfera da produção quando da distribuição e divulgação. As lutas
políticas acabam interferindo nas produções de quadrinhos. A nova safra de
Super-Heróis representada pela revista The
Authority, por exemplo, revela concepções e valores intimamente ligados com
o movimento antiglobalização e as mudanças sociais a partir da nova fase do
capitalismo mundial (Viana, 2008; Viana, 2011), marcada por um novo regime de
acumulação (Viana, 2009a).
O Estado, no entanto,
exerce uma interferência muito mais ampla e direta na produção dos quadrinhos.
Uma destas formas é através da censura. Desde o caso clássico da criação do
Comics Code até hoje a censura atua. A criação do Comics Code ocorreu devido
pressões com publicações anti-quadrinhos que promoveram a criação de uma
comissão no senado americano, que era basicamente um processo de auto-censura
imposto pelo capital editorial para evitar pressão estatal e popular. O Comics
Code, criado pela recém constituída CMAA – Comic Magazine Association of
América – era um selo de “qualidade” que era colocado na parte superior e do
lado direito (ou esquerdo) das revistas. A censura do Comics Code atingir
quadrinhos eróticos, de terror, políticos, entre outros.Leis também foram
criadas, tal como na França e Brasil A legislação passou a ser outro elemento
inibidor que permanece até os dias atuais.
O Estado, no entanto, em
muitos casos realiza uma intervenção mais poderosa ainda, através da produção
de quadrinhos. Isso ocorre principalmente nos regimes capitalistas estatais
(União Soviética, China, Cuba) e regimes ditatoriais fascistas. Mas muitos
governos financiam ou publicam quadrinhos. No caso brasileiro, o governo
estadual de São Paulo lançou, em 2009, a revista “A Revolução Constitucionalista de 1932 em Quadrinhos”, para citar
apenas um exemplo. No Japão, As Aventuras
de Dankichi mostra a ambição expansionista deste país, no qual um jovem
japonês desembarca no sul do Pacífico e se torna rei dos nativos (Gubern,
1979). Isso também ocorreu na França e Espanha, entre outros países, em momento
de guerra. O caso italiano é ainda mais curioso:
“A Itália fascista
produziu alguns exemplos muito significativos de potilização das histórias em
quadrinhos. Em 1938, o Governo deste país proibiu a publicação de comics
norte-americanos, julgados ‘contrários ao espírito nacional-fascista’. Porém,
como seus personagens haviam calado solidamente no público, a proibição foi
iludida pelos desenhistas e guionistas, rebatizando com nomes do país os
grandes arquétipos vetados pela censura. Assim, Flash Gordon continuou a
publicar-se com desenhos de Giove Toppi e guiões[5] de Federico Fellini. Ainda
em 1938, com a idéia de substituir os populares personagens norte-americanos,
Carlo Cossio, sobre guião de Vicenzo Baggioli, deu vida a Dick Fulmine, personagem musculoso de nome
oportunamente ítalo-americano – dado que perderia o ‘Dick’ quando a Itália teve
que enfrentar os anglo-americanos nos campos de batalha –, ao qual foi dado o rosto de Primo Carnera,
glória internacional do pugilismo italiano. Herói apoiado nas excelências da
força física mais que na sagacidade ou na inteligência, foi levado pelos seus
autores a combater na Guerra Civil espanhola, nas frentes da África colonial e
da União Soviética” (Gubern, 1979, p. 26-27).
Outra forma pela qual o
mundo político influencia os quadrinhos é através do seu uso político.
Normalmente as HQ manifestam mensagens e concepções políticas, mas em
determinados períodos isso se torna demasiadamente explícito. Isto ocorreu
principalmente com a emergência da Segunda Guerra Mundial, o que deu
visibilidade ao caráter político dos heróis e super-heróis, que “entraram na
guerra”, embora alguns fossem filhos dela, tal como o Capitão América (Viana,
2005). Os heróis da época lutavam contra os opositores além do super-herói cujo
uniforme era a bandeira dos Estados Unidos. Este foi o caso de O Príncipe Valente, lutando contra os
hunos (germânicos), Dick Trace e Agente X-9 combatendo espiões e Tarzan
enfrentando soldados nazistas (Bibe-Luyten, 1987). O Pato Donald e muitos
outros se engajaram nesta guerra ideológica.
4. Os Quadrinhos como determinação da
história
Os quadrinhos influenciam
os leitores? Influenciam o comportamento político? Ao repassaram ideologemas
também influenciam os leitores em suas escolhas políticas? Sem dúvida, para
gente como o psiquiatra F. Wertham, a resposta é positiva, pois sua campanha contra
os quadrinhos buscava justamente mostrar os efeitos nefastos destes sobre a
juventude[6]. Essa análise é ainda hoje
repetida por muitos.
Porém, a influência dos
quadrinhos é muito menor do que se pensa e ocorre muito menos no que se refere
à consciência e concepções políticas e muito mais no que tange ao inconsciente
coletivo (Viana, 2005). Apenas os leitores mais experientes e atentos para as
questões políticas é que perceberão certas posições e concepções, mas estes já
possuem suas próprias concepções e posições antes da leitura e que foram
produzidas em outros processos diferentes da leitura de quadrinhos.
A maior influência no
sentido de atingir a consciência e as escolhas políticas ocorre nas mensagens
mais repetitivas dos personagens, tal como o moralismo (“o crime não
compensa”), determinado senso de justiça, o heroísmo, etc. Claro que os
quadrinhos produzidos especificamente com fins políticos, tal como os
eleitorais, podem ser bem mais eficaz, mas nesse caso não são os quadrinhos
fictícios que convencem eleitoralmente e sim o jogo de imagem e as mensagens
que realizam esse papel.
Sem dúvida, determinados
quadrinhos, em determinados contextos, poderão exercer maior influência, tal
como no caso da Segunda Guerra Mundial, já que o heroísmo era uma necessidade
neste período e havia um clima consensual quanto aos objetivos da guerra. De
qualquer forma, em maior ou menor grau existe uma certa influência das HQ na
formação de valores, sentimentos e concepções e isso irá influenciar
determinadas tomadas de posição ou escolhas políticas. E nesse ponto, os
valores assumem um papel de grande importância para a determinação não apenas
das escolhas políticas como das escolhas em geral. Os valores fundamentais do
indivíduos servem como mecanismos de escolhas de outros valores e são
constituídos socialmente, inclusive pelo processo de socialização e pelo acesso
aos meios de comunicação (Viana, 2007), tal como as histórias em quadrinhos,
reprodutoras de valores.
5.
Análise de uma
Manifestação Política nos Quadrinhos: Os Super-Heróis e as Eleições
As manifestações
políticas nos quadrinhos são sutis. Às vezes, no entanto, ficam mais claras
quando manifestam posições referentes a regimes políticos e governos. Um
exemplo pode esclarecer a sutileza da mensagem política por detrás das
histórias em quadrinhos. A história “Heróis não Votam” expressa uma determinada
posição política e servirá como exemplo para nossa análise.
A história da Liga da
Justiça da América ocorre num contexto de eleições presidenciais, com quatro
candidatos a presidência: o democrata David Brewster, o republicano Bob
Ridgeway, e ainda Kate McLellan e Martin Suarez. Atentados terroristas contra
os candidatos ocorrem e a grande trama se dá na busca de descobrir e impedir o
assassino, além de, obviamente, prendê-lo. Porém, além desta situação
problemática principal existe uma outra, que é a da posição dos super-heróis
diante do processo eleitoral. Tudo começa quando o Arqueiro Verde, o mais
politizado dos super-heróis da DC Comics[7], declara seu apoio ao candidato
David Brewster, o candidato mais à esquerda[8]. Outros super-heróis
começam a demonstrar sua opção política e a situação vai ficando cada vez mais
complicada. A declaração de apoio do Arqueiro Verde rende um grande avanço nas
pesquisas eleitorais para o candidato Brewster, sendo que o mesmo não ocorre
com os demais candidatos, já que os super-heróis que se manifestam não estão
entre os mais populares e de maior credibilidade. Uma discussão entre Arqueiro
Verde e Lanterna Verde recorda os anos 1970, um à esquerda e o outro à direita.
Cada vez mais super-heróis vão declarando seu apoio, mas sem grandes
reviravoltas eleitorais, até que a Mulher-Maravilha declara seu voto para o
neoliberal Bob Ridgeway[9], o que altera o quadro
eleitoral.
Porém, alguns super-heróis
defendem a neutralidade eleitoral, especialmente os dois grandes líderes da
Liga da Justiça: Batman e Superman. Eles não declaram apoio e nem entram em
discussões públicas ou mesmo na Liga da Justiça sobre isso. O Superman se
envolve na discussão devido pressão de sua esposa, como Clark Kent, em declarar
de quem será o seu voto. Ele defende que o voto é secreto e ela
contra-argumenta dizendo que ele sabe em quem ela votará (que pela descrição[10] é Ridgeway ou Suarez,
sendo mais provável o primeiro). Apesar da insistência de Lois Lane, ele não
revela, nem mesmo no final da história, após ambos já terem votado. A posição
de Superman é manifesta em entrevista concedida a Lois Lane, após muita
insistência desta e da imprensa em geral. Ele, após dizer que o criminoso
estava preso e não representar mais ameaça, faz o seu discurso:
“A
minha esperança é que o foco desta eleição retorne agora às propostas dos
candidatos para o futuro do país. E com isso sinto-me obrigado a responder uma
pergunta que foi apresentada a mim. Quem eu desejo ver como o próximo
presidente dos Estados Unidos. Eu tenho uma escolha. Existe um entre esses
quatro ótimos representantes que irá liderar melhor esta nação. Mas seria
irresponsável de minha parte compartilhar isso com vocês. Assim como sinto que
tenha sido errado que qualquer um de nós que combate a injustiça, os chamados
“heróis”, permitamos que nossas opiniões sejam conhecidas nesta que é a mais
importante das ocasiões. Para começar, quem quer que seja eleito ao mais alto
posto do país, não deve pensar que não terá o nosso apoio total. Que nossas
fidelidades são mais fortes junto a um candidato derrotado. Vocês compreendem e
sempre compreenderam, que a nossa missão, é proteger não somente esta nação,
mas este mundo... e todos os mundos além das estrelas. Nós não respondemos a
ninguém... portanto, nós não governamos. Somos heróis. E nós servimos. Eu
acredito que o privilégio de escolher quem irá nos liderar é um direito
sagrado. Um que deve permanecer para sempre intacto. Nós não escolhemos lados.
As batalhas que travamos são maiores do que aquelas no âmbito político. Me
machucaria pensar que o presidente pudesse acreditar que ele ou ela não poderia
contar conosco, nos procurar ou confiar em nós. Mas o mais importante... é que
se nós nos envolvermos nesta eleição... em qualquer eleição... estaremos
traindo vocês, a quem nos dedicados para servir e proteger. Existe uma aliança
implícita entre vocês e nós. Vocês nos permitem servir por fora das leis de
qualquer país. Nossas ações não são governadas por ninguém. Não recebemos
recompensas pelo nosso sucesso, nem punições pelo nosso fracasso. Vocês
escolhem. Vocês decidem. E nós iremos, como sempre... proteger”
Esse discurso, quase no
final da história, que termina com o casal votando e Clark Kent resistindo à
pressão de Lois Lane para dizer em quem votou, é a parte na qual a mensagem
política fica mais clara. A posição dos super-heróis, no discurso de Superman,
é o mesmo do policial, do soldado do exército e do funcionário público. Ele é um
“servidor” da população e cuja fidelidade é com o Presidente – independente de
suas preferências políticas partidárias. O papel de “polícia do mundo” (Marny,
1970) está preservado, bem com sua suposta “neutralidade”. Os valores
manifestos são a importância das eleições (“a mais importante das ocasiões”), o
direito ao voto (“privilégio”, “direito sagrado”), todos os candidatos são bons
(“quatro ótimos candidatos”). Os
desvalores explicitados são a manifestação de opinião e dos super-heróis sobre
as candidaturas (“sinto que tenha sido errado”). Esses valores são legitimados
racionalmente através de uma suposta “aliança implícita” entre os super-heróis
e a população e o líder escolhido por essa deve receber o “apoio total”. O
super-herói está acima das questões do “âmbito político”.
Sem dúvida, o discurso de
Superman tem base no bom senso e conservadorismo político, a exaltação da
democracia americana e da democracia representativa em geral, o que nada tem de
“neutro”, apesar do discurso da neutralidade. Ao defender as regras do jogo,
ele defende o jogo e suas regras. O total desconhecimento da origem dos
super-vilões e criminosos comuns que dão sentido à vida dos super-heróis e sua
raiz social e, portanto, relacionada com a política, e com a sociedade em sua
totalidade. Batman, em A Piada Mortal,
apresenta uma outra versão, ao mostrar o processo de produção social do
criminoso e, inclusive, o seu próprio papel nesta produção (Viana, 2011). O
discurso político do Superman é o do modo de vida americano, mais uma
manifestação quadrinista do americanismo, a potencia líder mundial, pois sua
missão não é proteger apenas os EUA, mas todas as nações e planetas, tal como
faz este país com sua política imperialista.
6. Considerações Finais
Apresentamos um breve
panorama da relação entre histórias em quadrinhos e política. Claro que
inúmeros outros exemplos poderiam ter sido citados, bem como diversos outros
elementos acrescentados. Porém, devido ao caráter amplo da relação entre política
e quadrinhos, preferimos uma versão mais panorâmica.
As histórias em
quadrinhos, como qualquer outro produto cultural em nossa sociedade, possui uma
relação íntima com a política. As histórias em quadrinhos, a partir de seu
processo de mercantilização, o que produz a profissionalização e
burocratização, se tornam cada vez mais controladas e vazias de conteúdo. O
papel proeminente do capital editorial no seu processo de produção lhe impõe
limites que não se encontra em outras formas ficcionais. Além disso, no caso de
grande parte dos personagens, o seu direito pertence não ao criador e sim à
editora, o que o faz ter mudanças ao passar para a mão de outros roteiristas e
desenhistas, tal como no caso exemplar dos super-heróis da DC Comics, que
tiveram, para resolver as contradições estabelecidas nas histórias dos
personagens (em algumas versões do Superman, ele surgia apenas na idade adulta,
em outras, havia o Superboy), criando as “infinitas terras”, em cada uma
existindo os super-heróis sob formas diferentes.
Isso também promove, na
maioria dos casos, um processo de produção coletiva semelhante ao que ocorre
com o cinema[11],
o que significa que o processo criativo é mais complexo e possui muitos
indivíduos com suas idiossincrasias envolvidos no processo de produção. Existem
casos, no entanto, que o criador consegue manter um maior controle sobre sua
obra e alguns são roteiristas e desenhistas simultaneamente, o que facilita tal
controle. Porém, a proeminência do capital editorial faz com que as histórias
em quadrinhos se tornem dominadas pela dinâmica capitalista e mercantil, o que
significa que suas mensagens tendem a ser predominantemente conservadoras.
No entanto, isso não é o
que ocorre em todos os casos, existem as exceções, devido às próprias contradições
do capital editorial. O caso de Ferdinando é exemplar: a crítica social
expressa em suas histórias não agradava aos detentores do poder e ao capital
editorial, mas tinha público e rendia lucro, ou seja, era suportado por não ser
algo como um Shmoo, gratuito. Da mesma forma, desenhistas e/ou roteiristas
famosos, que já conquistaram um público próprio, ganham maior autonomia para o
desenvolvimento de suas obras. O círculo underground
também promove a criação de quadrinhos contestadores e que fogem a regra do
jogo do capital editorial.
A afirmação e a recusa da
política institucional (Estado, governo, democracia), as mais variadas posições
diante dos governos, a manifestação da luta de classes, se colocando a favor de
uma ou outra classe, a manifestação das mais variadas concepções políticas,
isto tudo se encontra no mundo dos quadrinhos. Num sentido mais amplo da
palavra política (toda forma de manifestação da luta de classes ou relações de
poder), é possível afirmar que os quadrinhos são eminentemente políticos, só
que manifestando concepções políticas distintas, que varia com histórias,
personagens, épocas, etc. Os quadrinhos são produtos sociais e na sociedade
moderna tudo carrega a marca da política.
Referências
Bakhtin, Mikhail. (1990) Marxismo e Filosofia da Linguagem. São
Paulo, Hucitec.
Bibe-Luyten, Sonia. (1987). O Que é História em Quadrinhos. 2ª
edição, São Paulo, Brasiliense.
Cirne, M. (1982). Uma Introdução Política aos Quadrinhos. Rio de Janeiro: Achiamé.
Dorfman, Ariel & Jofré,
Manuel. (1978). Super-Homem e seus Amigos do Peito. Rio de Janeiro, Paz
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Notas
[1] “Hoje costumamos distinguir entre
o político e o social, entre o Estado e a sociedade, mas estas são distinções
que só se consolidaram, na sua significação atual, no século 19” (Sartori,
1997, p. 158).
[2] Sem dúvida, existem várias
definições de Estado. Na nossa análise, consideramos Estado uma relação de
dominação de classe mediada pela burocracia (Viana, 2003).
[3] Ideologema é um fragmento de uma
ideologia, tendo em vista que essa é caracterizada por ser um pensamento
complexo, uma falsa consciência sistemática da realidade que, devido sua
sistematicidade, não pode ser repassada em sua totalidade para o mundo
ficcional, sendo que apenas fragmentos são possíveis nesse caso.
[4] Veja:
http://www.ep.tc/georgewallace/
[5]
Guião (português europeu) é o mesmo que roteiro ou argumento, é a forma
escrita que a história assume antes de sua produção.
[6] “Começou-se uma campanha contra as
HQ [após o fim da Segunda Guerra Mundial – NV]. Muitos artigos e livros
apregoavam que os quadrinhos eram maléficos para as crianças e que eram os
culpados pela delinqüência juvenil. O mais famoso foi o livro A Sedução dos inocentes, de Frederic
Wertham. Através de uma seleção parcial, procurava ele demonstrar que os
responsáveis por todos os males do mundo eram os quadrinhos. Chegava a absurdos
como o exemplo da moça que virou prostituta porque lia HQ” (Bibe-Luyten, 1987,
p. 36-37).
[7] Nos anos 1970, Arqueiro Verde se
tornou mais politizado e de “esquerda”, entrando em constantes polêmicas com o
Lanterna Verde, de posição conservadora (Viana, 2011).
[8] Nos EUA seria considerado de
esquerda, mas isto é devido ao pensamento conservador norte-americano, que faz
um candidato do Partido Democrata ser de esquerda, o que em outros países seria
de centro ou direita, para usar terminologia problemática do mundo político
institucional.
[9] Uma vez no governo, todos adotam
uma política neoliberal, mas na campanha eleitoral, nesta ficção dos
quadrinhos, quem assume o discurso neoliberal é Ridgeway e Suarez.
[10] “Sou orgulhosamente a favor de uma
força militar forte, um governo moderado, impostos baixos e máxima liberdade
individual”. Obviamente que este é o programa neoliberal, entendendo por
“governo moderado” o que menos intervém, deixando a “mão invisível” do mercado
regular a economia, o que é complementado por impostos baixos e máxima
liberdade individual. A força militar forte já se refere à política externa e
também em acordo com a ideologia neoliberal nos países imperialistas.
[11] Sobre o cinema como produção
coletiva, cf. Viana, 2009b.
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