quinta-feira, 1 de maio de 2008

Ainda existem heróis?



DOSSIER

Sentado, debruçado sobre o ventre, João Paulo II mostra, sem máscaras, o verdadeiro sentido do humano, isto é, a nossa imensa fragilidade e finitude. Era suposto que a modernidade, caracterizada pelo culto da beleza física, pelo ostracismo ao sofrimento e pela obsessão da juventude eterna, tivesse transformado o Papa no anti-herói. Porque um herói não treme. Um herói não sofre.

Mas sucedeu exactamente o contrário. João Paulo II foi nomeado pelos jovens de todo o mundo, num encontro que a história regista como a maior concentração de sempre, um herói do nosso tempo. Foi em Roma, estávamos em 2001 e o Papa pedia aos jovens que não tivessem medo de viver com Cristo.

Contrariando os estudos produzidos pelos sociólogos e antropólogos, que sustentam a heroicidade nas sociedades capitalistas apenas como o resultado dos atributos físicos – basta lembrar o papel que desempenham os desportistas no imaginário das crianças e mesmo adolescentes, sobretudo os futebolistas –, o Papa adquiriu o estatuto de herói, propagando tão-só as razões da sua fé.

E o mais extraordinário, dizem os vaticanistas, é que João Paulo II foi sempre melhor entendido pelos ateus e agnósticos do que pelos crentes da sua Igreja. Alguns dizem mesmo que foram aqueles que o tornaram herói.

Um “eleito” do Espírito Santo, como é o Santo Padre, não renuncia à Cruz. Mas a cruz, como metáfora de uma vida de dor, como todos sabemos, não é um projecto de vida atraente.


Como foi possível tornar João Paulo II um herói deste tempo? O mesmo, aliás, aconteceu com Cristo. O que é que Jesus propôs de interessante aos seus contemporâneos?

“Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” Quem é que no seu tempo queria ouvir estas palavras? E outras, como: “Amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar nada em troca. Será grande a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo.”
A quem interessaria este projecto de vida, num tempo onde a palavra “outro” não existia no léxico afectivo das pessoas?

A parábola da multiplicação dos pães é outro exemplo, bem elucidativo, da contradição que existia entre o pensamento dominante e a revolução que Jesus trouxe às mentalidades. Foi no gesto da multiplicação, da repartição, que nasceu o valor da solidariedade. Quando Jesus convidou as pessoas que o escutavam a partilhar o seu pão pelos que nada tinham, “obrigou” à descoberta não apenas do outro mas sobretudo da plenitude do outro na vida de cada um.

Por isso é que ainda hoje a pergunta subsiste: “Como foi possível a este homem obscuro e humilde converter-se na peça central da fé que mais adeptos tem no mundo inteiro – cerca de 2 mil milhões de cristãos, um terço da humanidade – e que, ainda por cima, resiste com uma surpreendente vitalidade às mudanças dramáticas por que o mundo passou nestes vinte séculos?”, pergunta-se Isabela Boscov, jornalista da revista Veja, num artigo intitulado As Faces de Jesus. “É que todas as respostas àquela pergunta têm de começar por um ponto crucial: o mundo dos significados contidos na figura de Jesus, que parece não se esgotar nunca, seja para os seus fiéis seja para os adeptos de outras religiões, foi a grande força escultora da civilização ocidental.”

Enquanto viveu, Jesus nunca foi considerado um herói. Os discípulos foram os únicos, naquele tempo, a entender a heroicidade dos seus actos. De resto, até o tribunal o condenou à pena mais humilhante: a cruz! Os heróis, no tempo de Jesus, eram eleitos pela bravura na arte de guerrear.

 O DESEJO DE PODER
1. Os heróis da banda desenhada acompanham a representação dos heróis de carne e osso criada pelo homem moderno? Dizem os especialistas que aqueles vão mais longe em termos de incorporação e divulgação de valores que os heróis de carne e osso. E isto por razões que se prendem com a sua própria definição.
“Os heróis possuem qualidades excepcionais, mas humanamente possíveis de serem imitadas”, diz Nildo Viana.

2. Os super-heróis são seres sobre-humanos e, por isso mesmo, superam as limitações humanas. Correspondem assim ao domínio da fantasia e são eles os protagonistas da superaventura escrita e desenhada.
“As aventuras dos super-heróis expressam uma fantasia que é a expressão do inconsciente colectivo, isto é, o desejo do poder.
Ora, vivendo numa sociedade dominada pela repressão, pela burocracia, nada é mais natural do que buscar na fantasia a força para ultrapassar o estado de coisas que criticamos”, explicou-nos Nildo Viana.

3. A falta de liberdade na sociedade contemporânea cria o desejo de liberdade, de poder, não no sentido de dominação, mas sim de potência. Segundo aquele sociólogo, “o desejo reprimido de liberdade, de ser livre e superar os limites impostos pela sociedade repressiva encontra no mundo dos heróis uma das suas formas mais expressivas”.
Os super-heróis, como Batman, por exemplo, rompem com os limites impostos, combatem a injustiça, defendem os fracos e os oprimidos. Todos os super-heróis incorporam uma mensagem de liberdade. Ainda segundo Nildo Viana, “é a vontade de liberdade inconsciente que cria estas aventuras onde o ser humano, em contacto com os seus super-heróis, rompe com os limites naturais e sociais.
É precisamente a ruptura com os limites que os transforma em super-homens”.

4. O Super-Homem e as suas respectivas cópias, como o Homem-Aranha ou o Batman, são os super-heróis que melhor traduzem o nosso inconsciente. Afinal, eles são capazes de fazer tudo o que nós gostaríamos de fazer mas não fazemos: desafiar o mundo. “Um super-herói é um indivíduo sobre-humano, o que significa ser mais do que uma simples marioneta desta sociedade repressiva”, refere Nildo Viana.
Por isso, “toda a superaventura é uma carta de alforria imaginária do ser humano escravizado no mundo da burocracia e da mercadoria”.


Cristo foi o primeiro herói moderno. O primeiro homem a dar a vida pelos outros, a preconizar o valor da solidariedade. O herói do mundo moderno, segundo Nildo Viana, sociólogo, professor universitário e investigador das Ciências Humanas, um dos maiores especialistas mundiais na matéria, “é, por um lado, uma figura que sofre e, por outro, uma representação individualista do homem na sociedade massificada e despersonalizada”.
Também Jesus o foi. Na Cruz desenhou o mapa da salvação individual. Cada homem tem direito à misericórdia de Deus.

É sempre muito complexo avaliar, no plano social, as principais características do homem moderno. Do que não temos dúvidas é da sua complexidade, das contradições, dos paradoxos. E os heróis do nosso tempo traduzem estas contradições. Já o nascimento de Jesus personificou o cúmulo do paradoxo. O Salvador nasceu num estábulo porque em Belém, em virtude do recenseamento obrigado por César a todos os cidadãos de Roma, não havia um único lugar disponível nas hospedarias.

De João Paulo II a Dalai Lama, de Madre Teresa de Calcutá a Nelson Mandela, de Sérgio Vieira de Mello a Aung San Suu Kyi. O que há de comum entre estes homens e estas mulheres? O que os torna heróis da modernidade?

Antes de mais, a coragem que todos tiveram de dar a vida pelo outro, independentemente das consequências individuais. A coragem é a virtude dos heróis, escreveu André Comte-Sponville, no seu Pequeno Tratado das Grandes Virtudes: “De todas as virtudes, a coragem é, sem dúvida, a mais universalmente admirada. Facto raro, o prestígio que desfruta parece não depender nem das sociedades nem das épocas e quase nada dos indivíduos. Em toda a parte a covardia é desprezada; em toda a parte a bravura é estimada.”

As formas podem variar, escreve ainda, mas “o que não varia, ou quase não varia, é que a coragem, como capacidade de superar o medo, vale mais que a covardia ou a poltronice”.

Nelson Mandela esteve preso 30 anos nos calabouços das prisões sul-africanas, por se opor ao regime do apartheid. Quem, senão a coragem, pode acalentar um homem preso durante três décadas?


A coragem, disse Voltaire, não é uma virtude mas uma qualidade comum aos “celerados e aos grandes homens”. Uma excelência, pois, mas que, em si, não é moral nem imoral. O mesmo, aliás, sucede com a inteligência ou com a força, também elas admiradas, também elas ambíguas (podem servir tanto ao mal como ao bem).
O que leva Aung San Suu Kyi, heroína da resistência birmanesa pela democracia, Nobel da Paz, a suportar o martírio do sofrimento (está presa há mais de 10 anos pelo regime autoritário do seu país, remetida a um silêncio profundo), senão a coragem de prosseguir o caminho dirigido à construção de uma sociedade mais justa e plural?

“Não estou tão certo que a coragem não signifique mais, senão uma virtude”, questiona André Comte-Sponville.

A coragem, se não é sempre uma expressão de altruísmo, é, pelo menos, uma manifestação de desinteresse, de desprendimento, de distanciamento do eu. Como, aliás, Jesus ensinou quando aceitou o sacrifício da Cruz por amor a todos os homens.

A ideologia pós-moderna, afirmou Nildo Viana, enquadra-se na tentativa de tornar o indivíduo a medida de todas as coisas, transformando o hedonismo e o individualismo nos valores dominantes da sociedade moderna.

Neste contexto, acrescenta aquele investigador, “o herói é incompatível com a sociedade pós-moderna” porque, como sabemos, os heróis transportam consigo os valores contrários àqueles que hoje animam as nossas referências sociais.

Dizem alguns investigadores das ciências sociais que, ao homem moderno, a figura do herói já não chega para alimentar o universo da fantasia e da ilusão.

 OS HERÓIS DO NOSSO TEMPO segundo Isabel Leal
1. Na tradição grega, os heróis eram os chefes e os chefes eram homens diferentes e divinizados porque filhos dos deuses. Tinham poderes extraordinários, coragem para dar e vender e partiam constantemente em busca de aventuras que os cobriam de glória.

2. Porque os deuses existiam (embora à imagem e semelhança dos homens) e os seus filhos bastardos povoavam o mundo e dirigiam os povos, havia uma ordem cosmológica que era também terrena. Todos os grandes acontecimentos eram míticos e todos os pequenos avatares do quotidiano se podiam inscrever numa qualquer simbologia de transcendência que deixava os homens, constante e definitivamente, a braços com os incompreensíveis desígnios dos deuses.

3. Os gregos passaram, deixaram-nos os clássicos, as ilhas, a repsina e mais umas coisas, entre elas o gosto e a vontade de termos sempre os mediadores entre os céus e a terra, filhos dilectos que nos cuidam, negoceiam por nós, e nos conduzam, bem ou mal, mas nos conduzam. Para que o desamparo não nos invada. Para que o sentido último e teleógico da vida e da morte não se perca.

4. Depois dos gregos, nasceram e morreram muitos grandes impérios que fabricaram sempre os seus heróis, cada vez mais frágeis e monos divinizados, cada vez mais circunstanciais e perecíveis. Conseguem quase ser heróis, por algum tempo, os jogadores da bola, os ídolos pop, os actores de primeira grandeza. Depois esquecem-se, porque outros se seguem na carreirinha estreita da glória e da fama.

5. Porque quase todos os segredos se profanizaram, os heróis deixaram de ser os chefes, os corajosos e os aventureiros. As pessoas reais que conhecemos e sabemos existir às vezes merecem admiração, respeito, conseguem até merecer unanimidades, ingressar em panteões, serem canonizadas ou louvadas em épicos dispendiosos, desde que mortas. A condição dos heróis do nosso tempo é a inexistência, a impossibilidade de confronto com realidades que nos desiludam. Tornamo-nos cínicos ou práticos.

6. Mas para que a grandeza de outros tempos não se dissolva completamente, inventamos o Homem-Aranha e a Vampirella, o Corto Maltese e a Miss Marple, Rex, o cão-polícia, e o Rambo, Astérix e Obélix, James Bond e Nero Wolfe e mais uma extensa galeria de heróis de todos os formatos, idades, cores, tamanhos e até espécies, que não esperamos que nos salvem nem nos guiem, mas que preenchem espaço no imaginário de cada um de nós, com a enorme vantagem de nos divertirem.

7. Sinais do tempo. Que troca mitos por exibições; glória eterna por sucesso imediato e rentável; imortalidade por popularidade.

8. É muito menos grandioso, mas não é seguro que seja menos inteligente.


E não chega por duas razões, acrescenta aquele sociólogo: a primeira é que “o herói é demasiadamente humano. Como todos nós, está submetido às regras da competitividade, da burocracia, do sofrimento”. A segunda razão “prende-se com a leitura simbólica que o homem contemporâneo faz da heroicidade, já não tanto uma súmula de representações morais ou espirituais, das quais se destaca a coragem, por exemplo, mas uma leitura emergente, a do homem deus, que emerge cada vez mais no mundo hedonista”.

David Beckham representa, hoje, o exemplo perfeito do super--herói. Esclarece-nos Nildo Viana, a este propósito, que a transformação do jogador de futebol em super-herói se deve à visão mercantilista das sociedades modernas onde o fenómeno da tecnologia domina todos os padrões de pensamento.

O que é Beckham senão o produto mais acabado da sociedade do espectáculo, absolutamente representado pela tecnologia, nomeadamente quando é apresentado ao mundo como um produto tão vendável como qualquer outro?

Nada no futebolista está pensado ao acaso. A sua mulher é a primeira a zelar pela função mercantilista. Beckham é repreendido por Victoria sempre que não cuida da sua aparência em campo. Basta ter os cabelos despenteados para a Spice Girl ficar incomodada e o repreender. E quem não se lembra da apresentação do jogador aos adeptos do Real Madrid? O cenário espectacular, a música, a imagem, tudo cuidadosamente estudado e testado.


No mercado das acções, nada do que é humano pode parecer. Na bolsa de Nova Iorque, de Tóquio ou de Londres, o que conta é apenas quanto valem as acções de cada empresa. O Real Madrid é uma empresa como qualquer outra. Ou melhor, é uma das mil maiores empresas do mundo. E Beckham é o produto mais vendido em toda a Ásia. É assim que a te-cnologia transforma um ídolo num super-herói.
João Abreu, um dos poucos especialistas nacionais em marketing do futebol, explica que o trabalho desenvolvido por esta disciplina económica é transformar os super-heróis em deuses.

Torná-los de tal modo inumanos, através de uma pormenorizada operação de cosmética, que vai desde a imagem aos valores. Para que depois a tecnologia os possa vender como habitantes de uma galáxia divina.

Beckham é o primeiro super-herói do pós-modernismo. Segundo João Abreu, “símbolo físico por excelência, futebolista, este indivíduo que resulta um ser andrógino e, por isso, não representativo de nenhum género social ou sexual, rico, mas com calças sempre rotas é o mais elaborado homem imaterial que a tecnologia concebeu”.

A mulher está tão plastificada quanto ele. Beckham vagueia entre o material e o imaterial, entre a ideia de produto e a representação estética, entre o homem e a mulher – o jogador é um dos mais importantes ícones gay da actualidade –, entre o ídolo e o super-herói.

A concepção de herói, e por maioria de razão a de super-herói, varia em função da história, disse-nos Nildo Viana. “A visão romântica e a visão prometeica do herói permanecem. Mas, hoje, o que predomina na nossa sociedade é a concepção narcisista e individualista, embora, paradoxalmente, existam sinais da retoma do espírito prometeico, nomeadamente, os heróis que apelam à transformação social do mundo. É a crise social que reforça esta tendência”, afirma.

 CAPITÃO AMÉRICA
Porque é que o homem moderno tem necessidade de criar super-heróis? O Capitão América é um exemplo muito esclarecedor. A sua origem na ficção ocorre durante a Segunda Guerra Mundial. Roger era um soldado exposto a uma experiência científica que visava criar supersoldados norte-americanos para combater os inimigos. Foi feito um soro para fornecer uma força sobre-humana aos soldados.

A experiência teve resultados positivos e o super-herói foi reforçado por um uniforme inspirado na bandeira dos Estados Unidos. Este super-herói foi responsável por inúmeras vitórias do exército americano. Por fim, caiu num frigorífico e foi congelado por décadas, até que Namor, o Príncipe Submarino, num momento de irritação com os seres humanos, atirou para longe o frigorífico e este derreteu, libertando o Capitão América, que passou a ser um super-herói do tempo moderno.

Como se pode perceber, “a origem, o nome, a finalidade, a acção e as ligações do Capitão América fazem dele o mais ideológico dos super-heróis existentes. A própria personalidade do Capitão, marcada pelo espírito de liderança e bom senso, é a expressão máxima da ideologia americana”, afirma Nildo Viana.


Sérgio Vieira de Mello talvez exemplifique esta visão. Quando morreu, o mundo deu-lhe honras de primeira página. Morreu ao serviço da paz. Aliás, foi o primeiro atentado terrorista na história do mundo contra um representante da ONU em terreno de guerra e em missão de paz. O herói que incorpora os valores sociais. Como a paz. O símbolo de representação máxima do herói contemporâneo.

Porque, tal como afirmou Nildo Viana, todos os heróis são espelhos do mundo e da sociedade em que vivem. A ser assim, quem serão os heróis do futuro, senão aqueles que lutaram pela paz?

A sociedade pós-moderna, como explicou George Steiner em Gramáticas da Criação (Relógio de Água), vai ser um tempo e um modo onde os heróis de carne e osso rapidamente se transformarão nos super-heróis da banda desenhada.

Isto só não vai acontecer com Beckham porque os super-heróis do pós-modernismo são tão efémeros quanto os mecanismos que os seus agentes criaram para os vender. As mercadorias entram no circuito económico e são velozmente consumidas.


Os heróis ficam no registo da história. Ficará o Papa João Paulo II porque mostrou pela primeira vez ao mundo que um Papa, símbolo máximo do poder espiritual, sofre e morre. Ficará Nelson Mandela porque sofreu 30 anos de cativeiro em nome da luta contra o racismo. Ficará o Dalai Lama porque num mundo de violência continua a pregar a paz.

E ficará no coração de todos os homens a Madre Teresa de Calcutá, grande heroína do século XX, como ficou dito aquando da sua beatificação. Deu a sua vida pelos mais pobres dos pobres. Escolheu como indumentária o sari das mulheres paupérrimas da Índia. No seu dia-a-dia partilhava a vida com os doentes em fase terminal. Nunca perguntou se as doenças eram contagiosas ou não. Nunca lhe vimos uma luva nem uma máscara. Depois de entrar nas leprosarias, lugares onde repousavam os mais pobres de todos os homens, aqueles que esperavam a morte sem ninguém ao seu lado, senão Deus, e mesmo Este só para aqueles que O conheceram, Madre Teresa lavava as mãos para dar de comer às centenas de crianças que estavam a seu cargo.

No dia da sua beatificação, o mundo ficou a saber que foram encontradas dezenas de cartas dirigidas ao seu director espiritual, dizendo que se encontrava numa longa e dolorosa experiência de noite escura da Fé.

Dizia a Beata Teresa que acreditava em Deus mas não o sentia. Não existe nada de mais sofredor na vida de um espiritual do que esta noite escura: acreditar sem sentir a presença de Deus na vida.

Talvez este episódio espelhe melhor do que nenhum outro a heroicidade da mulher que viveu no terreno da miséria absoluta. Teresa de Calcutá está registada na história recente como um dos maiores ícones do século XX. Foi por isso que João Paulo II a beatificou em apenas seis anos. É esta a característica fundamental do herói contemporâneo: recusa a sociedade massificada e luta por mudanças profundas no tecido social.