DOSSIER

Sentado,
debruçado sobre o ventre, João Paulo II mostra, sem máscaras, o verdadeiro
sentido do humano, isto é, a nossa imensa fragilidade e finitude. Era suposto
que a modernidade, caracterizada pelo culto da beleza física, pelo ostracismo
ao sofrimento e pela obsessão da juventude eterna, tivesse transformado o
Papa no anti-herói. Porque um herói não treme. Um herói não sofre.
Mas sucedeu exactamente o contrário. João Paulo II foi nomeado pelos jovens de todo o mundo, num encontro que a história regista como a maior concentração de sempre, um herói do nosso tempo. Foi em Roma, estávamos em 2001 e o Papa pedia aos jovens que não tivessem medo de viver com Cristo. Contrariando os estudos produzidos pelos sociólogos e antropólogos, que sustentam a heroicidade nas sociedades capitalistas apenas como o resultado dos atributos físicos – basta lembrar o papel que desempenham os desportistas no imaginário das crianças e mesmo adolescentes, sobretudo os futebolistas –, o Papa adquiriu o estatuto de herói, propagando tão-só as razões da sua fé. E o mais extraordinário, dizem os vaticanistas, é que João Paulo II foi sempre melhor entendido pelos ateus e agnósticos do que pelos crentes da sua Igreja. Alguns dizem mesmo que foram aqueles que o tornaram herói. Um “eleito” do Espírito Santo, como é o Santo Padre, não renuncia à Cruz. Mas a cruz, como metáfora de uma vida de dor, como todos sabemos, não é um projecto de vida atraente. Como foi possível tornar João Paulo II um herói deste tempo? O mesmo, aliás, aconteceu com Cristo. O que é que Jesus propôs de interessante aos seus contemporâneos? “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” Quem é que no seu tempo queria ouvir estas palavras? E outras, como: “Amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar nada em troca. Será grande a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo.”
A quem
interessaria este projecto de vida, num tempo onde a palavra “outro” não
existia no léxico afectivo das pessoas?
A parábola da multiplicação dos pães é outro exemplo, bem elucidativo, da contradição que existia entre o pensamento dominante e a revolução que Jesus trouxe às mentalidades. Foi no gesto da multiplicação, da repartição, que nasceu o valor da solidariedade. Quando Jesus convidou as pessoas que o escutavam a partilhar o seu pão pelos que nada tinham, “obrigou” à descoberta não apenas do outro mas sobretudo da plenitude do outro na vida de cada um. Por isso é que ainda hoje a pergunta subsiste: “Como foi possível a este homem obscuro e humilde converter-se na peça central da fé que mais adeptos tem no mundo inteiro – cerca de 2 mil milhões de cristãos, um terço da humanidade – e que, ainda por cima, resiste com uma surpreendente vitalidade às mudanças dramáticas por que o mundo passou nestes vinte séculos?”, pergunta-se Isabela Boscov, jornalista da revista Veja, num artigo intitulado As Faces de Jesus. “É que todas as respostas àquela pergunta têm de começar por um ponto crucial: o mundo dos significados contidos na figura de Jesus, que parece não se esgotar nunca, seja para os seus fiéis seja para os adeptos de outras religiões, foi a grande força escultora da civilização ocidental.” Enquanto viveu, Jesus nunca foi considerado um herói. Os discípulos foram os únicos, naquele tempo, a entender a heroicidade dos seus actos. De resto, até o tribunal o condenou à pena mais humilhante: a cruz! Os heróis, no tempo de Jesus, eram eleitos pela bravura na arte de guerrear.
Cristo foi o primeiro herói moderno. O primeiro homem a dar a vida pelos outros, a preconizar o valor da solidariedade. O herói do mundo moderno, segundo Nildo Viana, sociólogo, professor universitário e investigador das Ciências Humanas, um dos maiores especialistas mundiais na matéria, “é, por um lado, uma figura que sofre e, por outro, uma representação individualista do homem na sociedade massificada e despersonalizada”.
Também
Jesus o foi. Na Cruz desenhou o mapa da salvação individual. Cada homem tem
direito à misericórdia de Deus.
É sempre muito complexo avaliar, no plano social, as principais características do homem moderno. Do que não temos dúvidas é da sua complexidade, das contradições, dos paradoxos. E os heróis do nosso tempo traduzem estas contradições. Já o nascimento de Jesus personificou o cúmulo do paradoxo. O Salvador nasceu num estábulo porque em Belém, em virtude do recenseamento obrigado por César a todos os cidadãos de Roma, não havia um único lugar disponível nas hospedarias. De João Paulo II a Dalai Lama, de Madre Teresa de Calcutá a Nelson Mandela, de Sérgio Vieira de Mello a Aung San Suu Kyi. O que há de comum entre estes homens e estas mulheres? O que os torna heróis da modernidade? Antes de mais, a coragem que todos tiveram de dar a vida pelo outro, independentemente das consequências individuais. A coragem é a virtude dos heróis, escreveu André Comte-Sponville, no seu Pequeno Tratado das Grandes Virtudes: “De todas as virtudes, a coragem é, sem dúvida, a mais universalmente admirada. Facto raro, o prestígio que desfruta parece não depender nem das sociedades nem das épocas e quase nada dos indivíduos. Em toda a parte a covardia é desprezada; em toda a parte a bravura é estimada.” As formas podem variar, escreve ainda, mas “o que não varia, ou quase não varia, é que a coragem, como capacidade de superar o medo, vale mais que a covardia ou a poltronice”. Nelson Mandela esteve preso 30 anos nos calabouços das prisões sul-africanas, por se opor ao regime do apartheid. Quem, senão a coragem, pode acalentar um homem preso durante três décadas? A coragem, disse Voltaire, não é uma virtude mas uma qualidade comum aos “celerados e aos grandes homens”. Uma excelência, pois, mas que, em si, não é moral nem imoral. O mesmo, aliás, sucede com a inteligência ou com a força, também elas admiradas, também elas ambíguas (podem servir tanto ao mal como ao bem).
O que leva
Aung San Suu Kyi, heroína da resistência birmanesa pela democracia, Nobel da
Paz, a suportar o martírio do sofrimento (está presa há mais de 10 anos pelo
regime autoritário do seu país, remetida a um silêncio profundo), senão a
coragem de prosseguir o caminho dirigido à construção de uma sociedade mais
justa e plural?
“Não estou tão certo que a coragem não signifique mais, senão uma virtude”, questiona André Comte-Sponville. A coragem, se não é sempre uma expressão de altruísmo, é, pelo menos, uma manifestação de desinteresse, de desprendimento, de distanciamento do eu. Como, aliás, Jesus ensinou quando aceitou o sacrifício da Cruz por amor a todos os homens. A ideologia pós-moderna, afirmou Nildo Viana, enquadra-se na tentativa de tornar o indivíduo a medida de todas as coisas, transformando o hedonismo e o individualismo nos valores dominantes da sociedade moderna. Neste contexto, acrescenta aquele investigador, “o herói é incompatível com a sociedade pós-moderna” porque, como sabemos, os heróis transportam consigo os valores contrários àqueles que hoje animam as nossas referências sociais. Dizem alguns investigadores das ciências sociais que, ao homem moderno, a figura do herói já não chega para alimentar o universo da fantasia e da ilusão.
E não chega por duas razões, acrescenta aquele sociólogo: a primeira é que “o herói é demasiadamente humano. Como todos nós, está submetido às regras da competitividade, da burocracia, do sofrimento”. A segunda razão “prende-se com a leitura simbólica que o homem contemporâneo faz da heroicidade, já não tanto uma súmula de representações morais ou espirituais, das quais se destaca a coragem, por exemplo, mas uma leitura emergente, a do homem deus, que emerge cada vez mais no mundo hedonista”. David Beckham representa, hoje, o exemplo perfeito do super--herói. Esclarece-nos Nildo Viana, a este propósito, que a transformação do jogador de futebol em super-herói se deve à visão mercantilista das sociedades modernas onde o fenómeno da tecnologia domina todos os padrões de pensamento. O que é Beckham senão o produto mais acabado da sociedade do espectáculo, absolutamente representado pela tecnologia, nomeadamente quando é apresentado ao mundo como um produto tão vendável como qualquer outro? Nada no futebolista está pensado ao acaso. A sua mulher é a primeira a zelar pela função mercantilista. Beckham é repreendido por Victoria sempre que não cuida da sua aparência em campo. Basta ter os cabelos despenteados para a Spice Girl ficar incomodada e o repreender. E quem não se lembra da apresentação do jogador aos adeptos do Real Madrid? O cenário espectacular, a música, a imagem, tudo cuidadosamente estudado e testado. No mercado das acções, nada do que é humano pode parecer. Na bolsa de Nova Iorque, de Tóquio ou de Londres, o que conta é apenas quanto valem as acções de cada empresa. O Real Madrid é uma empresa como qualquer outra. Ou melhor, é uma das mil maiores empresas do mundo. E Beckham é o produto mais vendido em toda a Ásia. É assim que a te-cnologia transforma um ídolo num super-herói.
João
Abreu, um dos poucos especialistas nacionais em marketing do futebol, explica
que o trabalho desenvolvido por esta disciplina económica é transformar os
super-heróis em deuses.
Torná-los de tal modo inumanos, através de uma pormenorizada operação de cosmética, que vai desde a imagem aos valores. Para que depois a tecnologia os possa vender como habitantes de uma galáxia divina. Beckham é o primeiro super-herói do pós-modernismo. Segundo João Abreu, “símbolo físico por excelência, futebolista, este indivíduo que resulta um ser andrógino e, por isso, não representativo de nenhum género social ou sexual, rico, mas com calças sempre rotas é o mais elaborado homem imaterial que a tecnologia concebeu”. A mulher está tão plastificada quanto ele. Beckham vagueia entre o material e o imaterial, entre a ideia de produto e a representação estética, entre o homem e a mulher – o jogador é um dos mais importantes ícones gay da actualidade –, entre o ídolo e o super-herói. A concepção de herói, e por maioria de razão a de super-herói, varia em função da história, disse-nos Nildo Viana. “A visão romântica e a visão prometeica do herói permanecem. Mas, hoje, o que predomina na nossa sociedade é a concepção narcisista e individualista, embora, paradoxalmente, existam sinais da retoma do espírito prometeico, nomeadamente, os heróis que apelam à transformação social do mundo. É a crise social que reforça esta tendência”, afirma.
Sérgio Vieira de Mello talvez exemplifique esta visão. Quando morreu, o mundo deu-lhe honras de primeira página. Morreu ao serviço da paz. Aliás, foi o primeiro atentado terrorista na história do mundo contra um representante da ONU em terreno de guerra e em missão de paz. O herói que incorpora os valores sociais. Como a paz. O símbolo de representação máxima do herói contemporâneo. Porque, tal como afirmou Nildo Viana, todos os heróis são espelhos do mundo e da sociedade em que vivem. A ser assim, quem serão os heróis do futuro, senão aqueles que lutaram pela paz? A sociedade pós-moderna, como explicou George Steiner em Gramáticas da Criação (Relógio de Água), vai ser um tempo e um modo onde os heróis de carne e osso rapidamente se transformarão nos super-heróis da banda desenhada. Isto só não vai acontecer com Beckham porque os super-heróis do pós-modernismo são tão efémeros quanto os mecanismos que os seus agentes criaram para os vender. As mercadorias entram no circuito económico e são velozmente consumidas. Os heróis ficam no registo da história. Ficará o Papa João Paulo II porque mostrou pela primeira vez ao mundo que um Papa, símbolo máximo do poder espiritual, sofre e morre. Ficará Nelson Mandela porque sofreu 30 anos de cativeiro em nome da luta contra o racismo. Ficará o Dalai Lama porque num mundo de violência continua a pregar a paz. E ficará no coração de todos os homens a Madre Teresa de Calcutá, grande heroína do século XX, como ficou dito aquando da sua beatificação. Deu a sua vida pelos mais pobres dos pobres. Escolheu como indumentária o sari das mulheres paupérrimas da Índia. No seu dia-a-dia partilhava a vida com os doentes em fase terminal. Nunca perguntou se as doenças eram contagiosas ou não. Nunca lhe vimos uma luva nem uma máscara. Depois de entrar nas leprosarias, lugares onde repousavam os mais pobres de todos os homens, aqueles que esperavam a morte sem ninguém ao seu lado, senão Deus, e mesmo Este só para aqueles que O conheceram, Madre Teresa lavava as mãos para dar de comer às centenas de crianças que estavam a seu cargo. No dia da sua beatificação, o mundo ficou a saber que foram encontradas dezenas de cartas dirigidas ao seu director espiritual, dizendo que se encontrava numa longa e dolorosa experiência de noite escura da Fé. Dizia a Beata Teresa que acreditava em Deus mas não o sentia. Não existe nada de mais sofredor na vida de um espiritual do que esta noite escura: acreditar sem sentir a presença de Deus na vida. Talvez este episódio espelhe melhor do que nenhum outro a heroicidade da mulher que viveu no terreno da miséria absoluta. Teresa de Calcutá está registada na história recente como um dos maiores ícones do século XX. Foi por isso que João Paulo II a beatificou em apenas seis anos. É esta a característica fundamental do herói contemporâneo: recusa a sociedade massificada e luta por mudanças profundas no tecido social. |
